| Dia: 17.06.2009 14h00 - Solaris (1972), Andrei Tarkovski
Baseado no livro de título homônimo do escritor polonês Stanislaw Lem, Solaris é considerado um dos mais importantes e reveladores filmes de ficção científica de todos os tempos, embora desagrade os fãs de sci-fi apenas interessados em efeitos especiais. A trama se desenvolve em uma estação espacial no planeta Solaris, onde estranhos acontecimentos colocam levam à necessidade de uma investigação. Chegando a Solaris, o protagonista Kris Kevin (Donatas Banionis) descobre que o oceano de Solaris é uma espécie de entidade viva, que provoca a materialização dos sonhos e desejos dos astronautas da base espacial. O próprio Kris Kelvin será surpreendido pela aparição de sua ex-esposa, que havia se suicidado anos antes por não se sentir amada por Kris. Em meio a discussões filosóficas, Kris descobre que a estação está povoada por "duplos" encarnados a partir das consciências dos poucos cientistas que ficaram na estação. Desse modo, Kris pode se defrontar com sua ex-mulher em carne e osso, e descobrir que a falat de sentido de sua prórpria existência estava ligada à incapacidade de amar. Embora tenha sido comparado, quando do seu lançamento, ao filme 2001: uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick, Solaris aborda a questão da ciência e da tecnologia por um viés bem diferente. Em primeiro lugar, acentua as relações humanas e psicológicas, mais do que o embate homem versus máquinas. Seu trabalho com o aspecto tecnológico do gênero ficção científica é, aliás, de uma sobriedade que beira o ridículo e o mal-feito ( sobretudo para quem cresceu vendo os filmes de George Lucas. No entanto, Tarkovski aproveita o gênero para mergulhar no desconhecido e no irracional, tocando por vezes no sobrenatural, tal como fez com Stalker (que também pode ser considerado um filme de ficção científica). Sua adaptação da obra de S. Lem também se afasta muitas vezes da letra do original, mas não deixa de estar atenta à sua essência (ao contrário do que ocorre no mais das vezes com a adaptação hollywoodiana de Steve Soderbergh). Tal como ocorre em Stalker, os personagens de Solaris se defrontam com os seus próprios desejos, e ao mesmo tempo se deparam com algo que ultrapassa o entendimento racional. E é aí, jutamente, no embate entre desejo e razão (científica e tecnológica, inclusive), que se abre o caminho profundo para a reflexão sobre o amor. Por isso Kris reconhece que a sua missão a Solaris talvez tivesse por objetivo nada mais nada menos do que reconhecer que o amor é justamente o que faz falta à humanidade.
Faixa etária: 16 anos
17h30 - ConferênciaJames Arêas
Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1981), mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1989) e doutorado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1999). Atualmente é Professor-Adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Candido Mendes (UCAM-Centro). Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Metafísica e História da Filosofia trabalhando principalmente com os seguintes temas: tempo, espaço, movimento, imagem, subvetividade, política.
18h30 - Stalker (1979), Andrei Tarkovski
Tal como Solaris, Stalker é uma adaptação de uma obra de ficção científica. Mas é antes de mais nada um filme de Andrei Tarkovski, pois as marcas genéricas ficam obliteradas, sobretudo quando se confronta esse filme com os clássicos do gênero, em favor de um filme autoral. Como em O espelho, Tarkovski explora ao máximo os contrapontos entre imagens sublimes (através de uma fotografia tratada quimicamente para criar diferentes texturas e um cromatismo fora de qualquer padrão cinematográfico) e um rico trabalho sonoro (com destaque para a música eletroacústica). Em Stalker, Tarkovski narra, assim como em Solaris, uma viagem ao desconhecido, agora não mais localizado no espaço, mas no próprio planeta Terra. Os protagonistas, um cientista e um escritor (vividos por Nikolai Grinko e Anatoli Solonitsyn, os mesmos cientistas de Solaris) buscam um local chamado "Zona", no qual haveria um cômodo onde seria possível a realização de todos os desejos (o que lembra o oceano de Solaris). Para chegar até lá, é preciso ter como guia um Stalker, uma espécie de sobrevivente da catástrofe, misto de curandeiro e profeta. Envolvidos nessa viagem misteriosa (narrada com recursos cinematográficos bastante simples, mas de uma beleza impressionante), os três aventureiros chegam à Zona, mas o local irá fazer com que se confrontem com seus próprios receios, mais do que com os seus desejos. Ao invés de ser uma Wunderkammer, a Zona expõe ao cientista e ao escritor as suas fragilidades, e leva-os a um questionamento de suas próprias vidas. Desse modo, a Zona pode ser considerada como um filtro capaz de levar à auto-revelação. Ao mesmo tempo, a Zona parece não estar localizada num espaço preciso. Por isso, o próprio Stalker parece duvidar da verdadeira existência da Zona. Mais do que um filme de ficção científica, Stalker acaba por revelar, através da arte e da poesia, que a ciência é ela sim uma grande ficção criada pelo homem para realizar os seus desejos. Incompreendido na U.R.S.S., como nos filmes anteriores, o filme ganhou o prêmio do Juri Ecumênico de Cannes, e tornou-se um dos filmes de maior sucesso de Tarkovski.
Faixa etária: 16 anos |