| Dia: 20.06.2009 14h00 - O inquilino (Roman Polanski, França, 1976)
Um dos filmes mais aterrorizantes de todos os tempos, já passou a barreira das três décadas e ainda continua arrepiando espectadores. Dirigido e estrelado por Roman Polanski, tem no elenco outra especialista em cenas perturbadoras: a gélida Isabelle Adjani, no auge da sua beleza. O enredo é até banal: um estrangeiro aluga um apartamento num edifício parisiense, que logo de cara tem certo ar inquietante, e começa a ser visto com desconfiança pelos seus vizinhos; o clima mal-assombrado cresce ainda mais quando sabemos que a inquilina anterior cometeu suicídio, e esse fato se converte em motivo de obsessão para o novo morador. Mas o que torna este filme excepcional é o despudor e a solvência narrativa do cineasta de origem polonesa, capaz de transformar essa trama quase trivial num asfixiante tratado filosófico, ao colocar em seu núcleo um tema grandioso: o mal. Demoníaco ou humano, sobrenatural ou terreno, inexplicável ou não, esse é o grande protagonista desta obra, na qual comparece também outro tópico universal: o duplo, com sua herança de espelhos, solidão e loucura. Essas questões chegam a ocupar a tela inteira, tanto em suas vertentes metafísicas como nos dramas tipicamente modernos de desintegração da personalidade e distúrbios da identidade. E, também, na complexa estranheza do ser estrangeiro; seja no prédio parisiense, no país europeu, ou na própria vida.
Faixa etária: 18 anos
17h30 - ConferênciaTadeu Capistrano e Erick Felinto
Tadeu Capistrano Professor de teoria da imagem da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA/UFRJ). Graduado em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e em Cinema e Audiovisual, pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde também concluiu Mestrado em Comunicação, Imagem e Informação. É Doutor em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde realizou tese sobre imagem, tecnologia e percepção com o apoio do CNPQ. Durante o ano de 2006 desenvolveu parte de sua tese como Visiting Scholar do Departamento de Literatura Comparada da Columbia University, em Nova York, sob orientação de Andreas Huyssen e de Jonathan Crary. Tem experiência na área de artes, com ênfase em teoria da imagem, principalmente nos seguintes temas: cinema, indústria cultural, modernização da percepção e novas tecnologias.
Erick Felinto Possui graduação em Comunicação Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1990), mestrado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993), especialização (ABD) pela Universidade da California, Los Angeles em Línguas e Literaturas Românicas (1997) e doutorado em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1998). É autor dos livros "A Religião das Máquinas: Ensaios sobre o Imaginário da Cibercultura" (Sulina, 2005), "Passeando no Labirinto: Textos sobre as Tecnologias e Materialidades da Comunicação" (EDIPUCRS, 2006), "Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens: Babel e a Sobrevivência do Sagrado na Literatura Moderna" (Sulina, 2008) e "A Imagem Espectral: Comunicação, Cinema e Fantasmagoria Tecnológica" (Ateliê Editorial, 2008). Pesquisador do CNPq e professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde leciona no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. É Presidente da Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação (Compós) e membro do Conselho Científico da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema (Socine).
18h30 - A estrada perdida (David Lynch, EUA, 1997)
"Um filme noir de terror do século XXI". Esta foi a definição de David Lynch para um de seus filmes mais perturbadores. Lost Highway é um sensorium de vibrações sinistras propagadas por fluxos temporais através de uma teia narrativa complexa de conexões horizontais e de integrações verticais que reagem umas sobre as outras impulsionando os personagens e espectadores em direção a uma órbita nebulosa. Na trama temos um casal protagonista imersos em uma atmosfera paranóica e delirante que traduz a sua convulsionada relação. Dentro de uma casa povoada por sombras, estes personagens parecem não entender o que está acontecendo com suas vidas, perdidos em um labirinto de sombras e superfícies especulares. O ambiente doméstico assume uma gravidade ainda mais densa e obscura a partir do momento em que a casa passa a ser invadida por uma câmera anônima que penetra cada vez mais nos interiores habitados pelo casal até registrar uma aterrorizante revelação. Tal "presença" estrangeira vira os protagonistas pelo avesso, transformando suas percepções familiares da casa em algo estranho, não familiar ou, como diria Freud, unheimlich. Toda essa fantasmagoria é mediada por artefatos tecnológicos como telefones, televisões, vídeo, câmeras, projetores e outros objetos familiares que conferem um grau aterrorizante à trama a medida que transfiguram as ações cotidianas em situações sinistras e (re)duplicam os personagens em imagens e vozes espectrais. As associações lógicas que o espectador tenta estabelecer no processo de "leitura" do filme ficam abaladas com as desconstruções de códigos narrativos, gerando radicais e rizomáticas "sinapses" cinematográficas. Esse caos perceptivo costuma produzir, como em outros filmes de Lynch, sensações de inquietante estranheza: forças bizarras e disruptoras propagadas através de estranhas conexões e bifurcações sinestésicas que geram os potentes efeitos do unheimlynch.
Faixa etária: 18 anos |