| Dia: 21.06.2009 15h30 - Páginas da Loucura (Teinosuke Kinugasa, Japão, 1926)
A psiquiatria, a psicologia experimental, e seus aparelhos de observações clínicas forneceram a alguns filmes do início do século XX um repertório de movimentos, caretas, tiques nervosos, gesticulações e expressões faciais através das imagens dos seus epiléticos, histéricos, sonâmbulos e loucos. A exploração do movimento das patologias corporais pela visualidade tecnocientifica foi importante para a representação dos movimentos frenéticos e anárquicos que podem ser visualizados em alguns filmes das vanguardas artísticas, entre eles a instigante obra-prima de Teinosuke Kinugasa, "Páginas da Loucura". Feito sob a égide da "Escola das novas percepções", este filme da vanguarda japonesa dos anos vinte aborda uma família que leva sua vida em torno de um manicômio onde o pai é o zelador e a mãe, uma das internas. Um dia, a filha do casal resolve contar à mãe o motivo da sua internação mostrando-lhe este sanatório cinematográfico. O passeio desencadeia um profundo mergulho nas memórias bizarras que contam a história da perturbada família. Através dessa espécie de catabase familiar, o filme de Kinugasa almeja suscitar perturbações psicomotoras por meio de uma estética atravessada de imagens vertiginosas, paroxismos visuais, fusões, anamorfoses, pulverizações, enlaçamentos, difusões e superposições de imagens. Abordando a insanidade através de diferentes ópticas e tratamentos estéticos, Páginas da Loucura também representa, sob influência do Dr. Caligari, o próprio estatuto do cinema e seu espectador diante da emergência de novas formas de espetáculo, sistemas de controle psíquico e saberes tecnocientificos. A partir desta perspectiva, cabe analisar, entre outros elementos, a metáfora do cinema como um espaço de loucos, dirigidos por uma força tecnocientifica e dissociativa capaz de histericizar os corpos e os sentidos sob o efeito d' a-luz-cine-ação.
Faixa etária: 16 anos
16h30 - Conferência
Tadeu Capistrano
Professor de teoria da imagem da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA/UFRJ). Graduado em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e em Cinema e Audiovisual, pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde também concluiu Mestrado em Comunicação, Imagem e Informação. É Doutor em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde realizou tese sobre imagem, tecnologia e percepção com o apoio do CNPQ. Durante o ano de 2006 desenvolveu parte de sua tese como Visiting Scholar do Departamento de Literatura Comparada da Columbia University, em Nova York, sob orientação de Andreas Huyssen e de Jonathan Crary. Tem experiência na área de artes, com ênfase em teoria da imagem, principalmente nos seguintes temas: cinema, indústria cultural, modernização da percepção e novas tecnologias.
Faixa etária: livre
17h30 - A loucura do Dr. Tubo (Abel Gance, França, 1916)
"Existe apenas uma arte que possui a riqueza e a poesia necessária para traduzir, refletir, sublimar o movimento e o porvir da era atômica, na qual a velocidade, a ubiqüidade e sensações jamais experimentadas até o presente se convertem ou converter-se-ão em elemento cotidiano. Esta arte é o cinema". As reflexões radicais e a filmografia monumental de Abel Gance o tornaram um dos pioneiros da experimentação cinematográfica e um dos pilares para a análise das relações entre cinema, tecnologia e percepção. De impressionante atualidade, as experimentações de Gance o levaram ao manifesto e criação da "polivisão", ou a projeção de três imagens diferentes sobre três telas, na qual "as fronteiras do tempo e do espaço abater-se-ão nas possibilidades de uma tela polimorfa; que adicione, divida ou multiplique as imagens, quanto o criador o deseje ou a criação o exija. Ubiqüidade das ações. Ubiqüidade dos tempos e das épocas. Passado, presente, futuro se condensando em sua própria destruição". A pequena obra prima A loucura do Dr. Tubo apresenta um cientista que, como o próprio Gance, inventa uma fórmula de distorcer a realidade visível, produzindo vertiginosas anamorfoses que instauram uma atmosfera de anarquia, humor e alucinação nas imagens e seus espectadores. Este pequeno e belo manicômio óptico parece cristalizar em sua superfícies tubulares as famosas "ambições desmedidas" de Gance nos primórdios do século passado: a sua fé nas possibilidades criativas e unificadoras do cinema, considerado uma "máquina mágica que pode transformar mentalidades e propiciar uma desitengração dos nossos hábitos ordinários de percerber e pensar".
Faixa etária: livre |