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Dia: 25.06.2009

14h00 - O Livro de Cabeceira (Peter Greenaway, Inglaterra, 1996)

A trama de O livro de cabeceira é simples, se comparada ao volumoso recheio de citações e de procedimentos estilísticos de vanguarda que o filme mobiliza: uma jovem escritora e calígrafa japonesa, Nagiko, (Vivian Wu) se apaixona por Jerôme um calígrafo inglês (Ewan Mc Gregor). Tal como seu pai fazia com ela quando na infância, Nagiko ensina Jerôme a escrever em seu corpo. O editor dela, no entanto, conquista os favores de seu amante, o que provoca a ira de Nagiko, que buscará outros corpos para escrever uma mensagem ao amante. Trata-se de uma adaptação de um monogatari clássico japonês do século XI, de Sei Shonagon, mas seria difícil qualificar o filme de Greenaway como adaptação (tanto quanto a sua Tempestade é uma adaptação de Shakespeare). Muito mais se trata de uma reflexão profunda e atualíssima sobre as relações entre corpo e escrita. Até onde escrever implica em escrever sobre o corpo, e a partir do corpo? E até onde a escrita não acaba sendo uma forma de paixão (que pode levar, inclusive, ao suicídio)? "Escrever é muito perigoso", diria G. Rosa. No filme, o monogatari de Sei Shonagon é citado varias vezes textualmente, e mostrado na materialidade do livro mesmo (uma das obsessões de Greenaway é justamente a imagem do livro, como se vê também em A tempestade). Tal como o livro de Sei Shonagon, que anuncia a modernidade literária no fundo do japão feudal, Nagiko escreve de forma fragmentária e proteica. Nesse sentido, cada um dos livros que escreve nos corpos de pessoas acaba sendo um pequeno fragmento de uma totalidade sempre inconclusa, uma espécie de cosmogonia fraturada e alegórica do mundo. Tudo isso é narrado com um regime barroco de montagem, através do qual Greenaway lança mão de recursos que vão da poesia concreta à video-arte, criando um estilo de transfusão em que a poesia se inscreve na tecnologia e vice-versa.
Faixa etária: 16 anos

17h30 - Conferência
Evando Nascimento e Latuf Mucci
Evando Nascimento
Possui Licenciatura em Português Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1987), Bacharelado em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (1982), Mestrado em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1987) e Doutorado em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1995; Pós-Doutorado pela Freie Universität Berlin, com bolsa do governo alemão (2007) e no PACC da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2004). Atualmente leciona na Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Tem experiência profissional na área de Letras e Filosofia, com ênfase em Literatura e Outras Produções Culturais, atuando principalmente nos seguintes temas: Literatura, Filosofia e Artes, Pensamento da Diferença, Desconstrução.

Latuf Mucci
Professor-Associado desde outubro de 2006, na UFF; pós-doutor em Letras Clássicas e Vernáculas (USP). Membro do Centro de Estudios de Narratología (CEN) , de Buenos Aires. Assessor junto ao Consejo de Investigación de la Universidad Nacional de Salta (UNSA), na Argentina. Assessor de Projetos junto à Universidad Nacional de Salta (UNSA), na Argentina. Decano do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Arte, da UFF. Credenciado junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras, da UFF; sub-área Literatura Brasileira, Teoria Literária. Possui graduação em Filosofia, mestrado em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990), mestrado em Ciências Políticas e Sociais - Université Catholique de Louvain (1968) e doutorado em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993). Faz parte do grupo de pesquisa GEITES (Grupo de Estudos Interdisciplinares de Transgressão). Atualmente é do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro da Universidade Federal Fluminense. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Literatura, atuando principalmente nos seguintes temas: Mário de Andrade, literatura e outras artes, poética, teoria literária, poesia, semiologia, semiótica, crítica literária. É co-autor do Dicionário de Termos Literários, editado pela Universidade Nova de Lisboa (www.fcsh.unl.pt/edtl).

18h30 - O Buraco (Tsai Ming-Liang, Taiwan, 1998)
Assim como Primeiro dia de Walter Salles, O buraco foi feito sob encomenda para o monumental projeto O ano 2000 visto por…do canal francês La sept Arte. Aqui, o taiwanês Ming-Liang (que já havia sido agraciado com O Urso de Ouro em Berlim por O rio, e que receberia a Palma de Ouro em Cannes justamente por O buraco), imagina o mundo contaminado por uma peste, que leva as pessoas a terem estranhos comportamentos, assemelhando-se às baratas (alusão a Kafka?) Para acabar com a peste, o governo começa a por as pessoas em quarentena, mas algumas pessoas conseguem ficar em casa, escondidas. Entre elas, uma jovem (Yang Kuei-Mei ), que será descoberta por seu vizinho do andar de cima. Esse vizinho (Lee Kang-sheng , ator de todos os filmes de Ming-Liang), abre um buraco no piso do apartamento para consertar um problema hidráulico, e acaba tendo acesso à vida da vizinha. Tal como ocorre em outros filmes de Ming-Liang, trata-se fundamentalmente do problema da incomunicabilidade e da distância que separa as pessoas nos grandes centros urbanos. Diversas vezes comparado a Michelangelo Antonioni, Tsai Ming-Liang também adota uma postura semelhante ao italiano quanto à mise-en-scène: seus filmes tem poucos e longuíssimos planos (e quase sempre planos abertos, com som obrigatoriamente intradiegético), mas o tempo está de tal forma materializado que quase é possível sentir a vida mesmo palpitando em seus filmes. Além do mais, como a "montagem" (no sentido soviético) é posta em segundo plano, toda a atenção se concetra sobre o jogo entre o décor e a interpretação. Assim, a chuva constante em O buraco, as paredes, os móveis, os corredores vazios, as comidas, os gestos cotidianos, tudo parece ganhar vida no filme, na medida em que as pessoas se integram de forma visceram com o espaço, e o espaço se transforma em tempo vivido. Assim, mais do que filmes de ação, filmes como O buraco são filmes de interpretação, tanto dos atores quanto do próprio olhar que o diretor lança sobre o mundo. Um olhar inquieto, crítico, mas que não exclui a delicadeza e o humor.
Faixa etária: 16 anos


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