| Dia: 26.06.2009 14h00 - A Dupla Vida de Veronique (Krysztof Kieslowski, Polônia, 1991)
Com A dupla vida de Véronique Krzystof Kieslovski reinventa um velho gênero da literatura e do cinema fantástico, a narrativa sobre o Doppelgänger ou o duplo. Desde Adelbert von Chamisso, passando por escritores tão díspares como Edgar Allan Poe ("William Wilson") e Dostoiévski, o tema do duplo se desdobra na teoria psicanalítica moderna. Não por acaso, um dos discípulos de Freud, Otto Rank, escreve um ensaio seminal sobre o tema, Der Doppelgänger, a partir de um filme de mesmo título do cinema silencioso alemão (1913). Mas se, na maior parte dos casos, o Duplo é visto ou como figura fantasmática (e fantasmagórica), ou como projeção esquizofrênica da personalidade, em A dupla vida de veronique Kieslovski toca nos secredos da Criação divina. No filme, a polonesa Werônika começa a atingir o auge de sua carreica como cantora lírica quando é subitamente acometida por dores no peito, que a levarão a um infarto e à morte em plena sala de concertos. Em Paris, uma outra musicista, Véronique (ambas vividas pela bela e magistral Irene Jacob), começa a sentir dores no peito, e após exames decide abandonar a carreira de cantora. Véronique se aproxima então de um marionetista cuja arte revela a Véronique o pressentimento do transcendente. Véronique quer entender, mas tudo o que lhe é possível é pressentir que não está sozinha neste mundo, ou que não esteve sozinha durante parte de sua vida. Assim como Weronika, ela viveu, durante um brevíssimo tempo, um encontro inesperado com a sua Outra, e esse encontro acaba envolvendo as duas numa trama de morte e vida. Tal como ocorre em outros filmes de Kieslovski, o sublime se revela nas imagens mais banais, e a poesia do filme decorre de imagens de pequenos detalhes, como uma luz crepuscular filtrada por uma janela, ou a poeira iluminada que cai de um teto de madeira. São as "lágrimas das coisas", como mostra Slavoj Zizek, que nos levam às verdadeiras lágrimas diante de um filme de Kieslovski. Mas é claro que a imagem visual de A dupla vida de Véronique não teria o mesmo impacto sem a colaboração vital de Zbigniew Preisner, parceiro de Kieslovski em quase todos os seus filmes. Aqui, como em A liberdade é azul, a música não é um elemento a mais, mas o elemento condutor da narrativa, tal como na concepção operística de Wagner.
Faixa etária: 16 anos
17h30 - Conferências
Andrea França e Adalberto Müller
Andrea França
Possui graduação em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1990), mestrado em Comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1995) e doutorado em Comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001). Atualmente é professora e pesquisadora da Graduação e da Pós-graduação no Departamento de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É Vice-Presidente da Socine - Sociedade de Estudos de Cinema e de Audiovisual, desde 2007. Tem livros e artigos publicados na área de Comunicação e Cultura, com ênfase nos campos do Cinema e do audiovisual, sobretudo nos seguintes temas: documentário e subjetividade, cinema contemporâneo, fronteiras culturais e experiência estética.
Adalberto Müller
Possui Graduação em Letras pela Universidade de Brasília (1993), Mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (1996), Doutorado em Letras pela Universidade de Sao Paulo-FFLCH-DLM (2002) e Pós-Doutorado (PDE-CNPq) na Universidade de Münster (WWU, Institut für Kommunikationswissenschaft, supervisão de Siegfried J. Schmidt). Atualmente é professor de Teoria Literária na Universidade Federal Fluminense (UFF)I. Foi Professor da Universidade de Brasília e do Programa de Pós-Graduação em Literatura da mesma Universidade de 2003 a 2005 . É membro da SOCINE (Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual) e da AFECCAV (Assotiation Française d'Enseignants et Chercheurs de Cinéma et Audiovisuel). Tem atuado por três anos (2007/2008) como Professor Visitante de Cinema no Programa Master I e II em Etudes Cinématographiques da Université Lumière Lyon2 (França). Em 2006, organizou o Festival de Poesia de Goyaz, com apoio do MINC/Monumenta e da UNESCO/BID. Organizou o XII Encontro Internacional da SOCINE, em 2008.
18h30 - Paisagem na Neblina (Theo Angelopoulos, Grécia, 1988)
Theo Angelopoulos reinventou o cinema grego com filmes inesquecíveis como Viagem a Citera, Paisagem na neblina, Um olhar a cada dia e A eternidade e um dia. Ex-aluno de literatura da Sorbonne, Angelopoulos começou sua carreira como crítico de cinema, dirigiu uma série de curtas-metragens, até que seu longa Alexandre, o grande fosse premiado em com o Leão de Ouro, em Veneza, em 1980. A partir daí, a trajetória de Angelopoulos foi uma sucessão constante de prêmios, em filmes cada vez mais belos e instigantes. Paisagem na neblina (que recebeu o Leão de Prata em Veneza) é, como vários filmes de Angelopoulos, um road movie (que lembra muito Alice nas cidades de Wim Wenders) . Mas antes de ser um road movie, esse e seus demais filmes se inspiram no fundamento de todas as narrativas de viagem, aliás um livro grego, a Odisséia. Se, em Paisagem na neblina , os protagonistas não são heróis, como Ulisses, mas antes vítimas sacrificiais, a viagem acaba sendo quase tão infinita quanto a de Ulisses. Nela, os irmãos Voula e Alexander, ela entrando na puberdade, ele ainda criança, viajam em direção à Alemanha, na busca do pai desaparecido (essa busca familiar caracterizaria uma série de road movies dos anos 90 e 2000). Como na Odisséia, a viagem acaba sendo também um processo de iniciação e de transformação. Numa das cenas mais comoventes do filme, Voula será estuprada por um caminhoneiro. Mas Angelopoulos filma como poeta, não mostra o fato bruto, mas busca a sua repercussão no espectador, preferindo trabalhar com o extra-campo, onde as possibilidades de significação são infinitas. Nesse sentido (e em muitos outros), o filme é uma resposta perene à pretensão do naturalismo e do verismo cinematográficos tão em voga hoje. Destaca-se ainda a figura de Orestes, um jovem motoqueiro que conduz uma trupe de atores (que lembram certos filmes de Fellini), e que acompanha Voula e Alexander durante um trecho da viagem. Finalmente, a fotografia poética de Giorgios Arvaninits acentua essa neblina que parece misturar realidade e sonho (ou pesadelo?) na viagem dos pequenos outsiders. Recentemente, em Budapeste, Walter Carvalho cita, como homenagem, a famosa cena em que se vê a mão de uma estátua sendo alçada aos céus por um helicóptero.
Faixa etária: 18 anos
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