| Dia: 27.06.2009 14h00 - Alphaville (Jean-Luc Godard, França, 1965)
Alphaville é não apenas um dos maiores sucessos de Jean-Luc Godard, mas um dos filmes que melhor definem a sua capacidade para dialogar com distintas vertentes da história do cinema. Pois Alphaville coloca em confronto gênros aparentemente inconciliáveis como o ensaio fílmico, o filme noir e a ficção científica, tudo isso temperado com pitadas bem dosadas de cinema de poesia e suspense. Por essas e outras razões, Alphaville é, juntamente com Acossado, um filme incontornável. Numa cidade governada e controlada de forma ditatorial por um supercomputador, Alpha 60, um detetive chamado Lammy Caution (Eddie Constantine, que estrelava papéis de detetive em filmes dos anos 50) procura um cientista chamado Professor Vonbraun, mas acaba sob a mira do supercomputador, e vê-se obrigado a enfrentar uma sociedade destituída de sentimentos, e por pessoas que passam diariamente por processos de lavagem cerebral. O mundo do futuro é, assim, para Godard, um mundo cada vez mais privado da liberdade de pensar, e, sobretudo, de sentir. Pois entre as coisas que os habitantes de Alphaville desconhecem está o amor, embora o amor livre e o sexo sejam absolutamente permitidos. Nesse sentido, o filme tem parentesco com várias « distopias » sci-fi típicas do século XX, como 1984, de Orwell, e Admirável mundo novo, de Huxley. Mas através do caráter ensaístico, Godard mergulha também na discussão sobre a relação entre uma lógica vazia e a desumanização resultante do progresso tecnológico (o que lembra as reflexões heideggerianas sobre a essência da técnica, que grassavam pela França nos anos 60). O tecido de citações do filme também é impressionante : dos versos de Jorge Luís Borges e das teorias de Einstein, que Alpha 60 repoete, aos poemas de Paul Eluard, que Lammy Caution apresenta à alphavillense Natasha von Braun (Anna Karina), Godard põe em confronto uma série infinita de discursos. Fazendo com que Natasha descubra literalmente e em todos os sentidos a significação profunda do amor, Lammy Caution passa de detetive a redentor, dando ao filme um caráter soteriológco.
Faixa etária: 16 anos
15h30 - Conferência
Jean-Henri Roger
Cineasta, pesquisador e professor no Departamento de Cinema da Université Paris VIII, na França. Fez parte do coletivo experimental de orientação marxista Dziga Vertov. Em 1969, realizou documentários experimentais e políticos com Jean-Luc Godard, tais como Pravda e British Sounds. Participou no grupo Cinélutte, onde realizou vários filmes sobre as lutas sociais. Entre seus longa-metragens de ficção, cabe mencionar Neige (1981), Cap Canaille (1982), Lulu (2001) e Code 68 (2005).
17h30 - Elogio ao Amor (Jean-Luc Godard, França, 2001)
Como ocorre nos filmes recentes de Godard, a experiência da montagem como escrita tem marcado profundamente suas realizações. A montagem, definida por paralelismo com um verso do poeta Malherbe em Histoire(s) du cinéma ("Montage, mon beau souci" alude ao verso "Langage, mon beau souci" de Malherbe), revela-se o cerne das preocupações estilísticas do Godard recente, que também explora virtuosísticamente a fusão de formatos (35mm, vídeo, digital). Elogio do amor contem muitos fois narrativos, os quais retratam diferentes maneiras de se fazer arte, e consequentemente cinema. Na primeira primeira (preto e branco, 35mm) acompanhamos a história de Edgar, um cineasta que procura a atriz principal para seu filme Já na segunda parte (em cores, filmada em digital), vemos o que Edgar está fazendo dois anos depois: ele investiga a vida de um membro da resistência francesa a ser entrevistado por Steven Spielberg para um documentário sobre as vítimas do Holocausto e acompanha as negociações entre o assistente do diretor americano e a família do herói. Mas Elogio do amor é também um filme sobre um artista que procura criar a sua obra sem saber se fará um poema, um filme ou uma ópera. È também um filme recheado de citações, em vários tipos de mídia (trata-se do Godard intermedial em estado puro), como a cena em que vemos o rio Sena hoje mas ouvimos sons de L'Atalante de Jean Vigo, ou dos trilhos de trem com a trilha sonora de Pickpoket de Bresson; ou ainda um poema de Paul Celan no toca-discos, referência incompreensível para a maioria dos espectadores, ou para um espectador que compartilhe os mesmos referenciais de Godard, que aqui se concentram em torno da questão do Holocausto e da Resistência francesa.
Faixa etária: 18 anos
|